outubro 24, 2006

O MOMENTO


expressão visual por Frederico Fonseca

O momento etéreo
Aguarda adormecido
No seu sono leve.
Como o som do violino
Que quase silencioso,
Se escuta no fundo do mar.
Por entre melodias de dor,
As folhas dançam encantadas,
Como memórias do passado
Que nos sopram ao ouvido.
Deitado sob as ruínas do que nunca fui
Espero sonhando,
Segregando o suco venenoso
Que o tempo vai largando.
Deixando ao abandono os olhos
Da criança em mim defunta.

Mário Lisboa Duarte

outubro 16, 2006

ANESTESIA

Avanço por entre a multidão
Desalinhada
À procura de uma réstia de calma
Que me possa reconfortar
Como outrora
Nunca como agora
.Confusão.

Ecos de gritos lancinantes,
Carros que se arrastam pelas estradas,
Neons de mil e uma cores,
Becos estreitos sombrios
Olhares profundos e frios
De máscaras agitadas.
Gente que procura em vão,
Com as pernas já cansadas,
Algo que as alivie
Do cansaço e das dores,

Um qualquer anestésico pujante
Que as mantenha acordadas.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

outubro 05, 2006

CADAVRE EXQUIS I


expressão visual por Frederico Fonseca

Olhando por janelas maculadas,
O intenso odor de mundos,
Que só o Homem pode tocar.
O amargo sabor que o som
Transmite à mente
Transforma-se em reflexo na vidraça ,
Incólume, imóvel,
Ecoa…
Como Igreja transparecendo
Ecos do Nada, verdades-mentira,
Que do alto observa, julga,
Mas nada pode fazer senão ser
O que a sua Natureza lhe permite ser,
Nada mais, nada mais…
Ou talvez essa mesma vidraça baça,
Esse nevoeiro de Alma,
Esse misterioso Além-Homem,
Além-Tudo,
O que lentamente se torna inalcançável,
Como altar de desejos inibidos
Por ideais pré-concebidos.
Como inviolável peça de porcelana,
Violação de um espaço que não é seu,
O sol entra na gruta e as sombras nascem,
Erguem-se em protesto
De uma vida que não é sua.
E serpenteia, errante, pensando
Que aquele novo ser que o persegue,
Lhe pertence realmente.
Visões fugazes do que nunca foi,
Alma penosa, dorida,
Apaguem-se as luzes no fundo do túnel,
P
R
o
F
U
N
D
O
Talvez a vida.
Talvez a morte.

Margem d'Arte
(cadavre exquis feito a partir de uma folha A4, dobrada em vários lados (tipo leque) onde cada elemento foi escrevendo versos, sem ter noção do que se estava a criar. A única coisa em comum era o vinho, por sinal tinto, bom e honesto:-)