novembro 18, 2006

PSICOTERAPIA


expressão visual por Frederico Fonseca

Para o Lucas Madrugada

Hoje,
Nesta noite de silêncios,
Já nem a música me conforta
Com um breve sorriso na face.
Nem o som agudo do violino,
Nem o travo amargo da aguardente.

Hoje,
Nesta noite de tormentos,
Sofro de uma agonizante melancolia.

(E eu que cheguei a ser fera,
E eu que cheguei a ser profeta do prazer!)

Mas hoje, não.
Hoje, sou estrangeiro de mim próprio,
Amnésico por convicção.
deus caído em apatia.

Porque hoje,
Nesta noite de naufrágios
Deixei, por momentos, de existir
De sentir a minha alma dormente.

Hoje,
Reproduzo-me em mágoas mil,
Parindo de meu próprio ventre
Pedaços de alienação.

Em suma,
Hoje,
Dois mais dois nunca serão quatro,
Congelaram-se-me os gritos.
Talvez porque ao procurar
Vestígios de mim,
Em velhas caixas de infância,
No meio de tanta escuridão,
Acabei por abrir uma caixa de Pandora.

Hoje,
Apenas cataratas de solidão,
E, imóvel no meu sofá,
Aguardo por poderes sobre-humanos,
Do tipo levantar com a mão no ar,
E fazer chegar até mim,
A divina garrafa de ambrósia
Que me contempla do seu pedestal,
Como musa das atrocidades
E dos poetas mal-formados.
Antes fosse absinto, Alexandre.
Antes fosse absinto,
Que ao menos sempre dava
Para o sorriso na cara.

Hoje, mais do que nunca,
Pensamentos profundos,
Daquilo que sou,
Daquilo que sonho ser.
Hoje,
Caminho por entre florestas de silvas,
Rumo a matas de espinhos.

Hoje,
Gotas lânguidas de álcool
Escorregam puras
Pelas paredes do meu ser.
Hoje,
Destino-me a um poço sem fundo,
Ao abismo infinito,
À fogueira da verdade.

Mário Lisboa Duarte

novembro 13, 2006

AQUI OU ALÉM

Aqui ou além,
Tudo culmina
Em tangos multicolores,
Aqui ou além,
Tudo caminha
Com o vento.
Aqui ou além,
Com pequenas asas de borboleta,
Vamos voando voláteis
Contemplando a nossa frágil condição.
Entre os outroras e os amanhãs,
Lancemo-nos como flechas voadoras
Rumo a alvos de lânguido platonismo.
Embriagados pela luz,
Tornemo-nos mariposas
Como cavaleiros de lança na mão
Cavalgando em corcéis de algodão.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

novembro 07, 2006

(SU) POSIÇÃO


expressão visual por Frederico Fonseca

E se eu amanhã me matasse
Sentiriam porventura?
E se amanhã me elevasse
(Espero que esta febre passe)
Ao expoente da loucura,
E morresse e me matasse
E me fosse assim, simplesmente,
(Esta febre, esta agonia)
O que de mim ficaria?
O ar triste nas horas duras,
O sorriso disfarçado às escuras?
(Este mal estar que perdura)
E se eu amanhã me matasse...
Desfechando contra mim
Tudo aquilo que não quis encarar
Como verdade absoluta.
(Esta sina, esta labuta)
Se eu amanhã me matasse
Seria mais um filho da puta.

Mário Lisboa Duarte

BIBLIOTECA DO SER

Do alto das estantes
Que circundam os salões da memória,
Por detrás do seu silêncio,
Do seu profundo sono profano,
O Conhecimento,
Toma a forma de lava incandescente
Prestes a ser expelido
Por crateras de inconsciente.
Arte, Ciência, Filosofia,
Plantas, Números, Teologia,
Política, Amor, Feitiçaria,
Obras secretas, obras ocultas,
Proibidas, perdidas, desconhecidas,
Obras confusas, palavras pensantes…
Aqui,
Na Biblioteca do Ser,
A Senhora Dona Moral,
Bibliotecária caduca mas afamada,
Guarda as suas portas com grave cuidado.
De cada vez que a consulto,
Veda-me a passagem
Ameaçando engolir as chaves
Que guarda com o maior secretismo,
Não vá algum ser curioso, como Eu,
Largar fogo com um só sopro
Na chama nefasta da vida.

Mário Lisboa Duarte

expressão visual por Frederico Fonseca