março 19, 2007

PALHA


expressão visual por Frederico Fonseca

Ouve lá, pá!
Tu não sabes
Ou não queres saber,
Que a palha não é só p'ra comer!
Também serve p'ra ler,
Ver, ouvir, degustar,
Curtir e saborear,
Injectar, reflectir e correr!
Ouve lá, pá!
Tu pára e pensa lá
Para que serve a palha, afinal!
A todo o instante, pá
Sem excepção
Somos bombardeados com palha.
Mas presta bem atenção,
Pois a palha não é só palha.
Olha a palha na mortalha
P'ra enrolar e queimar!
Os rabos empalhados
Em corpos de palha,
Os banhos tomados
Neste imenso mar de palha.
Isto a vida é só palha, pá!
Não há mais nada que nos valha, pá!
Viva a palha!
Viva, pá!
Sempre palha a toda a hora!
Queremos palha sem demora!
O mundo é um asno esfomeado!
E o menino, na palha deitado, pá!
E o mundo é um eterno curral!
E o mergulho final
Na palha universal, pá!
Palha pá! Só palha pá!
Sempre a entrar palha!
Sempre a sair palha!
Viver sem palha
É uma enorme palhaçada, pá!
O palhaço come palha
E a vida é circo,
E o circo é palha, pá!
Os grandes a fazer palha,
Os pequenos a comer palha!
Todos a ruminar palha,
E os mortos empalhados, pá!
Uma vida sem palha,
Nem é palha nem é nada, pá!
Até o Nada é palha, pá!
Se um pobre te pede esmola,
Dá-lhe palha, pá!
A História é palha!
Deus é palha!
As grandes teorias, tudo palha, pá!
A Carne é palha!
O Verbo é palha!
A palha é o sustento
De toda a cadeia alimentar,
O combustível do porvir!
Viva a palha nas eiras
A transbordar! Viva!
Viva a palha na TV,
Na rádio, na rede, no CCB!
A grande falha
É faltar a palha!
É que a palha é a Mãe!
Palha é Vida,
Palha é ouro, pá!
E nem tudo o que luz é palha!
É a grande revolta da palha
E tu queres largar fogo à palha
Pá! Não vás para lá!
Mastiga a palha!
Morde a palha,
Consome a palha, pá!
Por isso, ouve lá, pá!
Pede palha e pede já!
Não tens que ter receio!
Pois há palha com fartura
Que chegue p'ra toda a gente!
E sempre que olhares
P'ró horizonte infinito
A palha estará sempre presente,
P'ra te iluminar,
P'ra te aconchegar,
P'ra te alimentar, pá!
Viva a palha! Viva!
Agora,
Papa a palha toda, vá!

Mário Lisboa Duarte

março 14, 2007

A CASA

Era uma velha casa plantada
Num dos verdes seios
Que antecedem a vastidão
Desse teu vale ventral.
Outrora, nela habitou
A minha vontade de ficar
Preso às raízes da árvore
Que a degusta e consome
num vazio quase eterno,
E então completar-me
permanecendo intemporal
na cinzenta ignorância das cinzas.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca