Outubro 22, 2008

'A VANGUARDA'

"Verificado que é assistirmos de vez em quando a uma reedição deste tema, 'A Vanguarda', e sempre devermos estremecer ao seu simples enunciado, que o estremeção seja nuns reactivo, receoso, desconfiado, e noutros desencadeie o desafio que se supõe que o termo contém, parece apropriado que, quanto mais não seja por uma simples razão de reflexo de consumidores zelosos, nós nos interroguemos sobre os porquês do fenómeno...
Mostram-nos; e cada vez mais sem ser preciso explicar porque é que aquilo que nos mostram é...

'A Vanguarda'. Verdade que se de facto ela corresponde ao que enuncia, se ela (=os seus produtos; as suas figuras; os seus sinais, e para mais se históricos, se consumados, se reconhecidos importantes...) é 'Vanguarda', então dispensa-se-nos o explicá-la como tal, porque, e nós aceitamos de bom grado o passe lógico, 'A Vanguarda' é o que não se explica. Pois que se se explicasse ela o deixaria de ser, nem que por um momento. Nem que por um minuto, de reflexão simultânea ao seu espectáculo, por um empobrecimento de que ela ('A Vanguarda') murcharia de morte, casta que o é na sua virgindade teórica, na sua respeitabilidade internacionalmente reconhecida. E nós, os broncos, nunca praticaremos a agressão que mal aflora à nossa consciência tornada pudica pela simples convenção do espectáculo. E nós, os provincianos, nunca escutaremos o grilinho do bom senso que a por outro lado estouvada mundana nos demonstra, internacionalmente, ser um reles, um desajustado antídoto do Pinóquio modernista, inovado, 'em dia', que ela em nós arrebata para o consenso imediato... E lá vamos, uns pelo medo, indignados, sempre de fora sem saber porquê, outros pelo estímulo, sempre de acordo, sem saber porquê. E nisto 'A Vanguarda' define-se: 'Vede como eu sou! Ap rova de que eu sou, são duas provas. Uma é a de que me resistem, este, aquele, agora, ontem, no tempo do fascismo, no tempo do stalinismo, etc. A outra é a de que me seguem, este, aquele, etc. E creio que não são precisos mais argumentos para vos provar que sou!...' E nós compreendemos, que isso de ser 'A Vanguarda' é mesmo assim, sóbrio, simples, ou isto ou aquilo, e constatamos.

Mas uma dúvida por vezes nos acompanha, positiva, teimosa, e que nos ajuda a adormecer, já resolvida. Então, diz a dúvida, ou melhor, duvida a dúvida, se isso que nos demonstram é vanguarda, porque se diz que foi? E também, continua a dúvida, se isso que nos demonstram é vanguarda, porque se diz que foi? Porque se no primeiro caso tem importância, não é preciso demonstrá-la dizendo que vem de longe, que tem títulos, continuidade, fotografias, etc.; porque uma vanguarda passadista, saudosista, nem mete medo a uns nem respeito a nenhuns. E no segundo caso, umas coisas que se veja mesmo serem de 1920 não são vanguarda, e se forem que lhes aproveita o título, porque as vitaminas já se perderam com estes anos todos, e para a vanguarda em múmia já cá tínhamos os Museus. A não ser que, neste 2.º estrepitoso anúncio, nos estejam a introduzir a um 'Museu da Vanguarda'. Então, se for mais um, Museu, a gente agradece. É um benefício. Embora o título de benfeitor não pareça convir à leveza da vanguarda, à sua amoralidade, por assim dizer.

E a dúvida, antes de adormecermos, já estava resolvida. Parecia-nos, serenamente, que o sobressalto da proposta era fingir. Que de todo em todo a vanguarda que se apregoa é falsa, para o presente e para o passado, mesmo que alguma erudição se metesse a provar fosse o que fosse. Porque, e vinha-nos à evidência do monólogo, qualquer conceito de vanguarda é resolutamente parasitário, e cada vez mais quanto mais a carne do que vivo apodrece, por assim dizer.

Pois se a vanguarda exprime por intenção do seu termo o que é tão vivamente interveniente que mal chega a reter-se, explosão da autenticidade do reprimido (como propõem, parece, os seus autores) e desafio à autoridade das classificações ambientes tanto quanto a eficácia dos vanguardistas vá permitindo identificá-las e surpreendê-las, então uma vanguarda que se comunique classificando-se à partida ('atenção à secção de vanguarda!' ou 'deixem passar a vanguarda! Auxiliem-na!') ou é vigarista (= falsa, consciente de falsificação) ou é trouxa (= mal informada). A veemência do concluído alertava-nos porém: a indignação é uma perigosa droga. E assim, já mesmo à beira do sono, equilibrávamos a paciência. É que 'A Vanguarda' é mesmo um conceito de Museu."

In Lapa, Álvaro, "Porque e como se nos divulga 'A Vanguarda'", Lisboa, Expresso, 10/03/1979, p.30.

2 anotações na margem:

etanol disse...

não foi devido à vanguarda que nomei o blog margem d'arte para o prémio dardos ( está no insónia), mas sobertudo por uma questão de empatia com este espaço.

abraço
Maria João

etanol disse...

não foi devido à vanguarda que nomei o blog margem d'arte para o prémio dardos ( está no insónia), mas sobertudo por uma questão de empatia com este espaço.

abraço
Maria João