agosto 28, 2006

PRECIPÍCIO OU O HETERÓNIMO DESCONSTRUÍDO

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do precipício.
Sossegadamente, fitemos o horizonte e aprendamos
Que a vida passa, de olhos abertos ou não.
(Fechemos os olhos).

Fechemos os olhos e aprendamos que o passado,
Assim como o que agora é, e o que há de vir,
È escuridão, de olhos abertos ou não.
Esqueçamos tudo.

Abramos os olhos, pois tanto faz.
De olhos abertos ou não,
Todos os caminhos são escuros
Culminando aqui, em precipícios.

Sem rancores nem arrependimentos que a nada levam,
Sem olhares demasiado profundos sobre vagos
Horizontes de denso nevoeiro,
Olhemos para trás.

Cheguemos à conclusão que assim teria de ser,
Pensando que podíamos, se quiséssemos, fazer revoluções,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
À beira do precipício, onde tudo virá parar.

Pensemos também, que deste modo,
Superamos uma data de futilidades,
Chegando à frente de tudo e de todos,
Num abrir e fechar de olhos.

Ao menos, lembrar-nos-emos um do outro,
Sem que a nossa lembrança nos traga
Remorsos e feridas e depressões,
Porque nunca fizemos revoluções.

E juntos saltemos devagar para este mesmo precipício
Cumprindo assim a verdadeira missão
Para a qual fomos destinados. Fechar os olhos
E cair lentamente, sobre o pesado sono da decadência.

mário lisboa duarte


expressão visual por debrum

agosto 26, 2006

SEI LÁ

Apetece-me chorar,
Sei lá porquê?
Porque sim, porque sinto
O que ninguém mais vê…
Porque pássaro preso
Não pode voar.
Porque barca quebrada
Não se lança ao mar,
Porque
Talvez.. Sei lá…
Apetece-me chorar.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

A MANCHA


expressão visual por Frederico Fonseca


A mancha está lá. No mesmo sítio de sempre. Nem o mais forte dos reagentes a conseguiu eliminar. À medida que a espiral do tempo se vai encurtando, a mancha vai aumentando, extravasando as fronteiras do ser. A mancha está lá. Onde sempre esteve. No mesmo sítio de sempre. Muitos a ignoraram julgando ser mais uma mancha, mais uma ínfima nódoa. Porém, como a própria espiral do tempo, entrou em profunda mutação, como a rocha que o mar vai desgastando, num silêncio primeiro imóvel e apenas incomodativo, depois lento e agonizante. Alimentou-se das tuas fraquezas mais banais, construindo desse modo tão animalesco e instintivo, as suas impenetráveis muralhas de moral. A mancha sempre foi mancha, mesmo antes da carne. Mas da carne fez-se ainda mais mancha, parindo o espírito manchado que hoje, a esta hora, neste preciso momento, faz parte de todos nós. A mancha não sairá. Quando veio, muito antes do verbo, veio para ficar. Pois é ela que comanda. Pois é ela a deusa cruel e imortal… Já o era, mesmo quando aos nossos olhos era apenas mais uma. Uma mancha meramente banal.


mário lisboa duarte

CHAMAS

Quando descer aos Infernos
Há-de ser só p’ra te ver a arder e a gritar.
Quanto a mim,
Há muito que fui já julgado e condenado
Ao Inferno dos poetas.
Aqui, onde estamos submersos,
Observam de perto os juízes da sentença final.
E, no entanto, ninguém os pode sentir.
Tomam forma de carne e de osso, de pedra e de cal,
À espera de ouvir o meu último grito de dor.
Sinto-os como ninguém pois,
Para além das raízes,
Que me prendem e impedem de fugir,
Tenho algo que desconhecem...

Quando a senhora da foice curvada
Pela porta da frente entrar,
Apenas irá encontrar
Uma alma a crepitar
Na chama dos meus próprios versos.

mario lisboa duarte

expressão visual por Frederico Fonseca

agosto 25, 2006

PASSAGEM


expressão visual por Frederico Fonseca

Consegues ouvi-los, amor?
Esperam por mim
Na fronteira onde estou,
Naquela estreita passagem
Que dá lugar à loucura.
Filhos da puta sem nome
Como lobos salivando.
Consegues ouvi-los, amor?
Vou com eles numa destas madrugadas,
Lançando o meu corpo contra
As suas garras afiadas.
Ignorando a dor, meu amor.
Como Quixote de capa e espada.

mário lisboa duarte

agosto 21, 2006

PRINCÍPIO

Com pequenos laivos de dor, caminhamos por pontes de corda, frágeis, pendentes, sobre abismos sem fundo. A Arte, será sempre mais um modo de expressar tudo aquilo que realmente sentimos e pensamos, modos de expressão quase perfeitos, e no entanto, tão longe de atingir o que, na verdade, todos procuramos. Através de abstracções, atinge-se o concreto e, se todo um trabalho, em busca dos pequenos prazeres da vida, não é solução, então nada mais há a fazer...
Em busca da pérola perfeita e sem forma, expurgando conceitos, preconceitos e modos de vida, tentámos conjugar vários tipos de Arte, a priori, distantes no tempo e no espaço.
Não é pela beleza que nos movemos, antes pelo contrário, é a sensação fugaz de ver nas entrelinhas, a verdadeira essência da espécie humana. a mesma essência que nos faz caminhar, rumo a ilhas povoadas de utopias.
Cada foto, cada poema, cada quadro é mais um impulso para continuar a sonhar e a viver, para continuar a acreditar que é possível dar algum sentido a tudo o que nos rodeia, com forma ou sem forma. Sonhem! Encontramo-nos do outro lado...