setembro 28, 2006

TORRE DE BABEL

Não construas pilares inatingíveis sobre ti,
Se ousas caminhar pelos mundos em quem vivo;
Não adormeças sobre pontes de ausência permanente,
Se pensas naquilo em que não sabes se penso,
Se olhas o meu mundo como pura utopia;
Deixa fluir a forma etérea das palavras,
A forma fluida dos dias, os sublimes estados de espírito,
Como a sonata que te desperta a mente
Que te abre portas de luz ofusca,
Janelas de oceanos encantados;
Se tudo o que imaginas é o que os sentidos te oferecem,
Se mesmo isso não acalma a tempestade
Que trazes junto ao peito ardente,
Como quando anseias por sonhos sem fim,
Não te demores no tempo que não te pertence;
Se pudesse partilhar tudo o que sentes,
Orientar-te-ia rumo ao Desconhecido:
Não fiques por aí perdida nesse mundo proibido.
Sê quem tu és e pode ser que percebas quem não sou.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 23, 2006

PALAVRAS


expressão visual por Frederico Fonseca

Pegar nas palavras
E brincá-las,
Moldá-las,
Ateá-las como pequenas faúlhas
A crescer na lava incandescente;
Expelir de minha boca
Pedaços de tudo o que quis
De tudo o que fiz,
De tudo o que deixei para trás.
Ferida que arde resplandescente
A minha boca fechada
NUNCA MAIS!

E rastejar
E arrastar-me
Até o sol nascer.

mário lisboa duarte

setembro 22, 2006

HOMUNCULUS

Sinto em mim uma irresistível
Propensão para a Morte.
É difícil contrariar este meu desejo,
Trabalho ingrato ocultar sentimentos;
Só a luz do sol que dá a Vida
Me obriga a resistir.
Soldado incógnito em campo de batalha,
Por vezes dispo a Alma
Tentando que apenas fique a máquina,
Mas também essa se movimenta
Rumo a um abismo sem fundo,
Como que autómato programado
Para a destruição.
Assim fica a propensão
E eU, vou envelhecendo
(Vai-se-me enrugando a pele transparente,
Fina como copo de cristal lascado).
Sinto em mim uma irresistível
Propensão para uma Loucura.
E os raios de sol, da luz que dá a Vida,
Atravessam-me a mente
(Queimam por dentro estes raios de luz).
Por vezes tento distrair a Dor,
Mas é remar contra a corrente;
E assim vou acordando e adormecendo,
Segregando cada vez mais bílis negra.
Pele, cabelos, carne, gordura,
Choro, grito, tristeza, amargura;
E tudo o resto para um só buraco,
Que no fundo não passa
De mera vala comum.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

FADO


expressão visual por Frederico Fonseca

Esta doença que me atormenta a mente
Este chão frio, sujo, espezinhado
Esta brisa, esta morte antecipada
Esta cinza, este pó amontoado
Este estado de dor permanente
O terror de ser grito congelado
Este ser saudoso do passado.

Caronte, porteiro a cobrar entrada
E este pobre homem a cantar o fado.

mário lisboa duarte

setembro 17, 2006

PE(R)DIDO

Que me cuspam na cara sem piedade
Que me cortem as costas com chicotes
Que me crucifiquem no alto da cidade
Que me peguem fogo com archotes

Não se importem com a dor que o prego deixa
Quero a coroa bem apertada
Quero sentir o que mais aleija
Por saber que não vou já sentir nada

É que eu há muito que fui morto e enterrado,
Pelos versos que escreveu a minha mão.
Que me importa pois ser sacrificado?

Que me martirizem sem perdão!
Quanto ao sangue que deixar derramado,
Deixem-no bem coberto de chão!

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 13, 2006

ÚLTIMA VALSA


expressão visual por Frederico Fonseca


Tenho fome, quero mais,
Tenho fome, dá-me mais.
Em nome de mim,
Do teu deus nas horas sombrias
Sacrifica esse sangue
Essa réstia de vida que te resta
Esse teu pequeno pedaço de ser
Essa tua seiva congelada,
Para que possas receber
A chama ardente
Há muito adormecida.
Deixa-me que te consuma
Que me sacie, que me contente
Que te leve a amargura dos dias
A solidão de noites em vão.
Nessa tua eterna tempestade
Quero perder-me para sempre
Apagando o brilho fugaz
Desse céu esfarrapado.
Como lobo esfomeado,
Espero ansioso por ti
Para essa tua ultima valsa,
Que mais cedo ou mais tarde,
Tocará para mim também.

mário lisboa duarte

setembro 10, 2006

NICODEMUS

Busco nas profundezas da alma
A criança que outrora fui,
O inocente acreditar
Que se perdeu para sempre.
Cedo me colocaram
Uma máscara de intelecto,
A passo longo e desenfreado
Fui renunciando à cegueira.
Agora,
Com palas nos olhos,
Vou por um caminho sombrio,
Procurando cais de embarque
Na ponta de um nó corredio.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 07, 2006

AO PODER IMPERIAL DA MAQUINARIA DO PORVIR


expressão visual por Frederico Fonseca

Ao poder imperial da maquinaria do porvir,
Entrego a Alma débil, inevitavelmente frágil.
Ventos vindos de horizontes longínquos,
Carregam consigo o cheiro nauseabundo
De um serei desconcertante.
Rumo ao caos organizado da roda dentada,
Traços maquinais vão-se desenhando,
Inconscientes, portentosos cabos de ligação,
Laivos de inevitável dependência.
E o Homem, vai deixando ao Tempo
O seu legado, o seu testamento,
Depositando seus pertences
Em múltiplas latas de gás venenoso…
A Roda-Mãe,
Essa vai girando cada vez mais empenada,
Ligando as entranhas a tubos oxigenados,
A frascos de soro.
Nas suas veias secas,
O sangue de outrora, a água da vida,
Apodrece, dia após dia, hora após hora,
E nós, vamos dançando,
Construindo no lodo,
A nossa própria vala comum.

mário lisboa duarte

setembro 04, 2006

APOSIOPESIS

A cada passo que dou na vida
Passam por mim sensações.
Em vão as tento agarrar.
O que oiço, o que vejo, o que sinto,
Já foi, outrora, no passado.
Fica uma enorme reticência…
E nada mais do que isso...
Em vão procuro captar
A forma perfeita das coisas.
Inutilmente me canso...
Maledictus sit o momento presente
Mais a fome que consome
Este ser insaciável que sou!
Pequena ténia cerebral,
Sabre de lâmina fooorrrrte!
Tudo em mim é cortar,
Deitar por terra!
E se penso na vida....
É só para concluir
Que é mera passageira
De comboio com rumo ao Vazio,
Onde o nada é maquinista
E a Morte, pica bilhetes.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 01, 2006

ESPELHO DE ALMA


expressão visual por Frederico Fonseca

Em certos momentos da vida,
Visito a estação de embarque,
Onde o comboio da Memória
Ruma direito ao Passado.
Mas de cada vez que faço as malas,
Decidido a partir,
Um imenso intenso nevoeiro
Teima em pairar sobre a linha.
E quanto mais vou avançando,
Mais denso se vai tornando,
De tal modo que, na janela embaciada
Apenas um vago reflexo distorcido,
Como que um espelho de Alma vazia…
Depois, seguem-se os longos túneis irrespiráveis
Que atravessam as montanhas da Solidão…
Aí, adormeço num sono profundo
Acordando em estações para lá do meu destino.
Com o olhar, ainda entorpecido,
Desembarco,
Ignorando que na placa à minha frente
Brilha um nome
...Esquecimento…

mário lisboa duarte

agosto 28, 2006

PRECIPÍCIO OU O HETERÓNIMO DESCONSTRUÍDO

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do precipício.
Sossegadamente, fitemos o horizonte e aprendamos
Que a vida passa, de olhos abertos ou não.
(Fechemos os olhos).

Fechemos os olhos e aprendamos que o passado,
Assim como o que agora é, e o que há de vir,
È escuridão, de olhos abertos ou não.
Esqueçamos tudo.

Abramos os olhos, pois tanto faz.
De olhos abertos ou não,
Todos os caminhos são escuros
Culminando aqui, em precipícios.

Sem rancores nem arrependimentos que a nada levam,
Sem olhares demasiado profundos sobre vagos
Horizontes de denso nevoeiro,
Olhemos para trás.

Cheguemos à conclusão que assim teria de ser,
Pensando que podíamos, se quiséssemos, fazer revoluções,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
À beira do precipício, onde tudo virá parar.

Pensemos também, que deste modo,
Superamos uma data de futilidades,
Chegando à frente de tudo e de todos,
Num abrir e fechar de olhos.

Ao menos, lembrar-nos-emos um do outro,
Sem que a nossa lembrança nos traga
Remorsos e feridas e depressões,
Porque nunca fizemos revoluções.

E juntos saltemos devagar para este mesmo precipício
Cumprindo assim a verdadeira missão
Para a qual fomos destinados. Fechar os olhos
E cair lentamente, sobre o pesado sono da decadência.

mário lisboa duarte


expressão visual por debrum

agosto 26, 2006

SEI LÁ

Apetece-me chorar,
Sei lá porquê?
Porque sim, porque sinto
O que ninguém mais vê…
Porque pássaro preso
Não pode voar.
Porque barca quebrada
Não se lança ao mar,
Porque
Talvez.. Sei lá…
Apetece-me chorar.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

A MANCHA


expressão visual por Frederico Fonseca


A mancha está lá. No mesmo sítio de sempre. Nem o mais forte dos reagentes a conseguiu eliminar. À medida que a espiral do tempo se vai encurtando, a mancha vai aumentando, extravasando as fronteiras do ser. A mancha está lá. Onde sempre esteve. No mesmo sítio de sempre. Muitos a ignoraram julgando ser mais uma mancha, mais uma ínfima nódoa. Porém, como a própria espiral do tempo, entrou em profunda mutação, como a rocha que o mar vai desgastando, num silêncio primeiro imóvel e apenas incomodativo, depois lento e agonizante. Alimentou-se das tuas fraquezas mais banais, construindo desse modo tão animalesco e instintivo, as suas impenetráveis muralhas de moral. A mancha sempre foi mancha, mesmo antes da carne. Mas da carne fez-se ainda mais mancha, parindo o espírito manchado que hoje, a esta hora, neste preciso momento, faz parte de todos nós. A mancha não sairá. Quando veio, muito antes do verbo, veio para ficar. Pois é ela que comanda. Pois é ela a deusa cruel e imortal… Já o era, mesmo quando aos nossos olhos era apenas mais uma. Uma mancha meramente banal.


mário lisboa duarte

CHAMAS

Quando descer aos Infernos
Há-de ser só p’ra te ver a arder e a gritar.
Quanto a mim,
Há muito que fui já julgado e condenado
Ao Inferno dos poetas.
Aqui, onde estamos submersos,
Observam de perto os juízes da sentença final.
E, no entanto, ninguém os pode sentir.
Tomam forma de carne e de osso, de pedra e de cal,
À espera de ouvir o meu último grito de dor.
Sinto-os como ninguém pois,
Para além das raízes,
Que me prendem e impedem de fugir,
Tenho algo que desconhecem...

Quando a senhora da foice curvada
Pela porta da frente entrar,
Apenas irá encontrar
Uma alma a crepitar
Na chama dos meus próprios versos.

mario lisboa duarte

expressão visual por Frederico Fonseca

agosto 25, 2006

PASSAGEM


expressão visual por Frederico Fonseca

Consegues ouvi-los, amor?
Esperam por mim
Na fronteira onde estou,
Naquela estreita passagem
Que dá lugar à loucura.
Filhos da puta sem nome
Como lobos salivando.
Consegues ouvi-los, amor?
Vou com eles numa destas madrugadas,
Lançando o meu corpo contra
As suas garras afiadas.
Ignorando a dor, meu amor.
Como Quixote de capa e espada.

mário lisboa duarte

agosto 21, 2006

PRINCÍPIO

Com pequenos laivos de dor, caminhamos por pontes de corda, frágeis, pendentes, sobre abismos sem fundo. A Arte, será sempre mais um modo de expressar tudo aquilo que realmente sentimos e pensamos, modos de expressão quase perfeitos, e no entanto, tão longe de atingir o que, na verdade, todos procuramos. Através de abstracções, atinge-se o concreto e, se todo um trabalho, em busca dos pequenos prazeres da vida, não é solução, então nada mais há a fazer...
Em busca da pérola perfeita e sem forma, expurgando conceitos, preconceitos e modos de vida, tentámos conjugar vários tipos de Arte, a priori, distantes no tempo e no espaço.
Não é pela beleza que nos movemos, antes pelo contrário, é a sensação fugaz de ver nas entrelinhas, a verdadeira essência da espécie humana. a mesma essência que nos faz caminhar, rumo a ilhas povoadas de utopias.
Cada foto, cada poema, cada quadro é mais um impulso para continuar a sonhar e a viver, para continuar a acreditar que é possível dar algum sentido a tudo o que nos rodeia, com forma ou sem forma. Sonhem! Encontramo-nos do outro lado...