dezembro 01, 2006

ESPELHO DO PASSADO

Embora ciente
De que um espelho
Será sempre
Reflexo afluente
De fontes rio reminiscência,
Onde outrora mergulhámos,

Pego no passado
E planto-lhe uma pedra,
Estilo tumba ancestral
Renegando uma após outra,
Todas as cósmicas nostalgias
Que um determinado espaço de tempo
Pode conter em si próprio.

Mário Lisboa Duarte



expressão visual por Frederico Fonseca

E DEPOIS


expressão visual por Frederico Fonseca

Desfaço-me em dois
E depois,
Sob o intenso silêncio das noites
Adensa-se a dependência.
"É preciso moral.
É preciso moral!"
Brada-me um velho resto mortal;
"Faça-se luz.
Faça-se luz!"
Lembra-me um pobre carregando uma cruz.
Já é dia.
E depois.
E depois...

Mário Lisboa Duarte

novembro 18, 2006

PSICOTERAPIA


expressão visual por Frederico Fonseca

Para o Lucas Madrugada

Hoje,
Nesta noite de silêncios,
Já nem a música me conforta
Com um breve sorriso na face.
Nem o som agudo do violino,
Nem o travo amargo da aguardente.

Hoje,
Nesta noite de tormentos,
Sofro de uma agonizante melancolia.

(E eu que cheguei a ser fera,
E eu que cheguei a ser profeta do prazer!)

Mas hoje, não.
Hoje, sou estrangeiro de mim próprio,
Amnésico por convicção.
deus caído em apatia.

Porque hoje,
Nesta noite de naufrágios
Deixei, por momentos, de existir
De sentir a minha alma dormente.

Hoje,
Reproduzo-me em mágoas mil,
Parindo de meu próprio ventre
Pedaços de alienação.

Em suma,
Hoje,
Dois mais dois nunca serão quatro,
Congelaram-se-me os gritos.
Talvez porque ao procurar
Vestígios de mim,
Em velhas caixas de infância,
No meio de tanta escuridão,
Acabei por abrir uma caixa de Pandora.

Hoje,
Apenas cataratas de solidão,
E, imóvel no meu sofá,
Aguardo por poderes sobre-humanos,
Do tipo levantar com a mão no ar,
E fazer chegar até mim,
A divina garrafa de ambrósia
Que me contempla do seu pedestal,
Como musa das atrocidades
E dos poetas mal-formados.
Antes fosse absinto, Alexandre.
Antes fosse absinto,
Que ao menos sempre dava
Para o sorriso na cara.

Hoje, mais do que nunca,
Pensamentos profundos,
Daquilo que sou,
Daquilo que sonho ser.
Hoje,
Caminho por entre florestas de silvas,
Rumo a matas de espinhos.

Hoje,
Gotas lânguidas de álcool
Escorregam puras
Pelas paredes do meu ser.
Hoje,
Destino-me a um poço sem fundo,
Ao abismo infinito,
À fogueira da verdade.

Mário Lisboa Duarte

novembro 13, 2006

AQUI OU ALÉM

Aqui ou além,
Tudo culmina
Em tangos multicolores,
Aqui ou além,
Tudo caminha
Com o vento.
Aqui ou além,
Com pequenas asas de borboleta,
Vamos voando voláteis
Contemplando a nossa frágil condição.
Entre os outroras e os amanhãs,
Lancemo-nos como flechas voadoras
Rumo a alvos de lânguido platonismo.
Embriagados pela luz,
Tornemo-nos mariposas
Como cavaleiros de lança na mão
Cavalgando em corcéis de algodão.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

novembro 07, 2006

(SU) POSIÇÃO


expressão visual por Frederico Fonseca

E se eu amanhã me matasse
Sentiriam porventura?
E se amanhã me elevasse
(Espero que esta febre passe)
Ao expoente da loucura,
E morresse e me matasse
E me fosse assim, simplesmente,
(Esta febre, esta agonia)
O que de mim ficaria?
O ar triste nas horas duras,
O sorriso disfarçado às escuras?
(Este mal estar que perdura)
E se eu amanhã me matasse...
Desfechando contra mim
Tudo aquilo que não quis encarar
Como verdade absoluta.
(Esta sina, esta labuta)
Se eu amanhã me matasse
Seria mais um filho da puta.

Mário Lisboa Duarte

BIBLIOTECA DO SER

Do alto das estantes
Que circundam os salões da memória,
Por detrás do seu silêncio,
Do seu profundo sono profano,
O Conhecimento,
Toma a forma de lava incandescente
Prestes a ser expelido
Por crateras de inconsciente.
Arte, Ciência, Filosofia,
Plantas, Números, Teologia,
Política, Amor, Feitiçaria,
Obras secretas, obras ocultas,
Proibidas, perdidas, desconhecidas,
Obras confusas, palavras pensantes…
Aqui,
Na Biblioteca do Ser,
A Senhora Dona Moral,
Bibliotecária caduca mas afamada,
Guarda as suas portas com grave cuidado.
De cada vez que a consulto,
Veda-me a passagem
Ameaçando engolir as chaves
Que guarda com o maior secretismo,
Não vá algum ser curioso, como Eu,
Largar fogo com um só sopro
Na chama nefasta da vida.

Mário Lisboa Duarte

expressão visual por Frederico Fonseca

outubro 24, 2006

O MOMENTO


expressão visual por Frederico Fonseca

O momento etéreo
Aguarda adormecido
No seu sono leve.
Como o som do violino
Que quase silencioso,
Se escuta no fundo do mar.
Por entre melodias de dor,
As folhas dançam encantadas,
Como memórias do passado
Que nos sopram ao ouvido.
Deitado sob as ruínas do que nunca fui
Espero sonhando,
Segregando o suco venenoso
Que o tempo vai largando.
Deixando ao abandono os olhos
Da criança em mim defunta.

Mário Lisboa Duarte

outubro 16, 2006

ANESTESIA

Avanço por entre a multidão
Desalinhada
À procura de uma réstia de calma
Que me possa reconfortar
Como outrora
Nunca como agora
.Confusão.

Ecos de gritos lancinantes,
Carros que se arrastam pelas estradas,
Neons de mil e uma cores,
Becos estreitos sombrios
Olhares profundos e frios
De máscaras agitadas.
Gente que procura em vão,
Com as pernas já cansadas,
Algo que as alivie
Do cansaço e das dores,

Um qualquer anestésico pujante
Que as mantenha acordadas.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

outubro 05, 2006

CADAVRE EXQUIS I


expressão visual por Frederico Fonseca

Olhando por janelas maculadas,
O intenso odor de mundos,
Que só o Homem pode tocar.
O amargo sabor que o som
Transmite à mente
Transforma-se em reflexo na vidraça ,
Incólume, imóvel,
Ecoa…
Como Igreja transparecendo
Ecos do Nada, verdades-mentira,
Que do alto observa, julga,
Mas nada pode fazer senão ser
O que a sua Natureza lhe permite ser,
Nada mais, nada mais…
Ou talvez essa mesma vidraça baça,
Esse nevoeiro de Alma,
Esse misterioso Além-Homem,
Além-Tudo,
O que lentamente se torna inalcançável,
Como altar de desejos inibidos
Por ideais pré-concebidos.
Como inviolável peça de porcelana,
Violação de um espaço que não é seu,
O sol entra na gruta e as sombras nascem,
Erguem-se em protesto
De uma vida que não é sua.
E serpenteia, errante, pensando
Que aquele novo ser que o persegue,
Lhe pertence realmente.
Visões fugazes do que nunca foi,
Alma penosa, dorida,
Apaguem-se as luzes no fundo do túnel,
P
R
o
F
U
N
D
O
Talvez a vida.
Talvez a morte.

Margem d'Arte
(cadavre exquis feito a partir de uma folha A4, dobrada em vários lados (tipo leque) onde cada elemento foi escrevendo versos, sem ter noção do que se estava a criar. A única coisa em comum era o vinho, por sinal tinto, bom e honesto:-)

setembro 28, 2006

TORRE DE BABEL

Não construas pilares inatingíveis sobre ti,
Se ousas caminhar pelos mundos em quem vivo;
Não adormeças sobre pontes de ausência permanente,
Se pensas naquilo em que não sabes se penso,
Se olhas o meu mundo como pura utopia;
Deixa fluir a forma etérea das palavras,
A forma fluida dos dias, os sublimes estados de espírito,
Como a sonata que te desperta a mente
Que te abre portas de luz ofusca,
Janelas de oceanos encantados;
Se tudo o que imaginas é o que os sentidos te oferecem,
Se mesmo isso não acalma a tempestade
Que trazes junto ao peito ardente,
Como quando anseias por sonhos sem fim,
Não te demores no tempo que não te pertence;
Se pudesse partilhar tudo o que sentes,
Orientar-te-ia rumo ao Desconhecido:
Não fiques por aí perdida nesse mundo proibido.
Sê quem tu és e pode ser que percebas quem não sou.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 23, 2006

PALAVRAS


expressão visual por Frederico Fonseca

Pegar nas palavras
E brincá-las,
Moldá-las,
Ateá-las como pequenas faúlhas
A crescer na lava incandescente;
Expelir de minha boca
Pedaços de tudo o que quis
De tudo o que fiz,
De tudo o que deixei para trás.
Ferida que arde resplandescente
A minha boca fechada
NUNCA MAIS!

E rastejar
E arrastar-me
Até o sol nascer.

mário lisboa duarte

setembro 22, 2006

HOMUNCULUS

Sinto em mim uma irresistível
Propensão para a Morte.
É difícil contrariar este meu desejo,
Trabalho ingrato ocultar sentimentos;
Só a luz do sol que dá a Vida
Me obriga a resistir.
Soldado incógnito em campo de batalha,
Por vezes dispo a Alma
Tentando que apenas fique a máquina,
Mas também essa se movimenta
Rumo a um abismo sem fundo,
Como que autómato programado
Para a destruição.
Assim fica a propensão
E eU, vou envelhecendo
(Vai-se-me enrugando a pele transparente,
Fina como copo de cristal lascado).
Sinto em mim uma irresistível
Propensão para uma Loucura.
E os raios de sol, da luz que dá a Vida,
Atravessam-me a mente
(Queimam por dentro estes raios de luz).
Por vezes tento distrair a Dor,
Mas é remar contra a corrente;
E assim vou acordando e adormecendo,
Segregando cada vez mais bílis negra.
Pele, cabelos, carne, gordura,
Choro, grito, tristeza, amargura;
E tudo o resto para um só buraco,
Que no fundo não passa
De mera vala comum.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

FADO


expressão visual por Frederico Fonseca

Esta doença que me atormenta a mente
Este chão frio, sujo, espezinhado
Esta brisa, esta morte antecipada
Esta cinza, este pó amontoado
Este estado de dor permanente
O terror de ser grito congelado
Este ser saudoso do passado.

Caronte, porteiro a cobrar entrada
E este pobre homem a cantar o fado.

mário lisboa duarte

setembro 17, 2006

PE(R)DIDO

Que me cuspam na cara sem piedade
Que me cortem as costas com chicotes
Que me crucifiquem no alto da cidade
Que me peguem fogo com archotes

Não se importem com a dor que o prego deixa
Quero a coroa bem apertada
Quero sentir o que mais aleija
Por saber que não vou já sentir nada

É que eu há muito que fui morto e enterrado,
Pelos versos que escreveu a minha mão.
Que me importa pois ser sacrificado?

Que me martirizem sem perdão!
Quanto ao sangue que deixar derramado,
Deixem-no bem coberto de chão!

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 13, 2006

ÚLTIMA VALSA


expressão visual por Frederico Fonseca


Tenho fome, quero mais,
Tenho fome, dá-me mais.
Em nome de mim,
Do teu deus nas horas sombrias
Sacrifica esse sangue
Essa réstia de vida que te resta
Esse teu pequeno pedaço de ser
Essa tua seiva congelada,
Para que possas receber
A chama ardente
Há muito adormecida.
Deixa-me que te consuma
Que me sacie, que me contente
Que te leve a amargura dos dias
A solidão de noites em vão.
Nessa tua eterna tempestade
Quero perder-me para sempre
Apagando o brilho fugaz
Desse céu esfarrapado.
Como lobo esfomeado,
Espero ansioso por ti
Para essa tua ultima valsa,
Que mais cedo ou mais tarde,
Tocará para mim também.

mário lisboa duarte

setembro 10, 2006

NICODEMUS

Busco nas profundezas da alma
A criança que outrora fui,
O inocente acreditar
Que se perdeu para sempre.
Cedo me colocaram
Uma máscara de intelecto,
A passo longo e desenfreado
Fui renunciando à cegueira.
Agora,
Com palas nos olhos,
Vou por um caminho sombrio,
Procurando cais de embarque
Na ponta de um nó corredio.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 07, 2006

AO PODER IMPERIAL DA MAQUINARIA DO PORVIR


expressão visual por Frederico Fonseca

Ao poder imperial da maquinaria do porvir,
Entrego a Alma débil, inevitavelmente frágil.
Ventos vindos de horizontes longínquos,
Carregam consigo o cheiro nauseabundo
De um serei desconcertante.
Rumo ao caos organizado da roda dentada,
Traços maquinais vão-se desenhando,
Inconscientes, portentosos cabos de ligação,
Laivos de inevitável dependência.
E o Homem, vai deixando ao Tempo
O seu legado, o seu testamento,
Depositando seus pertences
Em múltiplas latas de gás venenoso…
A Roda-Mãe,
Essa vai girando cada vez mais empenada,
Ligando as entranhas a tubos oxigenados,
A frascos de soro.
Nas suas veias secas,
O sangue de outrora, a água da vida,
Apodrece, dia após dia, hora após hora,
E nós, vamos dançando,
Construindo no lodo,
A nossa própria vala comum.

mário lisboa duarte

setembro 04, 2006

APOSIOPESIS

A cada passo que dou na vida
Passam por mim sensações.
Em vão as tento agarrar.
O que oiço, o que vejo, o que sinto,
Já foi, outrora, no passado.
Fica uma enorme reticência…
E nada mais do que isso...
Em vão procuro captar
A forma perfeita das coisas.
Inutilmente me canso...
Maledictus sit o momento presente
Mais a fome que consome
Este ser insaciável que sou!
Pequena ténia cerebral,
Sabre de lâmina fooorrrrte!
Tudo em mim é cortar,
Deitar por terra!
E se penso na vida....
É só para concluir
Que é mera passageira
De comboio com rumo ao Vazio,
Onde o nada é maquinista
E a Morte, pica bilhetes.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 01, 2006

ESPELHO DE ALMA


expressão visual por Frederico Fonseca

Em certos momentos da vida,
Visito a estação de embarque,
Onde o comboio da Memória
Ruma direito ao Passado.
Mas de cada vez que faço as malas,
Decidido a partir,
Um imenso intenso nevoeiro
Teima em pairar sobre a linha.
E quanto mais vou avançando,
Mais denso se vai tornando,
De tal modo que, na janela embaciada
Apenas um vago reflexo distorcido,
Como que um espelho de Alma vazia…
Depois, seguem-se os longos túneis irrespiráveis
Que atravessam as montanhas da Solidão…
Aí, adormeço num sono profundo
Acordando em estações para lá do meu destino.
Com o olhar, ainda entorpecido,
Desembarco,
Ignorando que na placa à minha frente
Brilha um nome
...Esquecimento…

mário lisboa duarte

agosto 28, 2006

PRECIPÍCIO OU O HETERÓNIMO DESCONSTRUÍDO

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do precipício.
Sossegadamente, fitemos o horizonte e aprendamos
Que a vida passa, de olhos abertos ou não.
(Fechemos os olhos).

Fechemos os olhos e aprendamos que o passado,
Assim como o que agora é, e o que há de vir,
È escuridão, de olhos abertos ou não.
Esqueçamos tudo.

Abramos os olhos, pois tanto faz.
De olhos abertos ou não,
Todos os caminhos são escuros
Culminando aqui, em precipícios.

Sem rancores nem arrependimentos que a nada levam,
Sem olhares demasiado profundos sobre vagos
Horizontes de denso nevoeiro,
Olhemos para trás.

Cheguemos à conclusão que assim teria de ser,
Pensando que podíamos, se quiséssemos, fazer revoluções,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
À beira do precipício, onde tudo virá parar.

Pensemos também, que deste modo,
Superamos uma data de futilidades,
Chegando à frente de tudo e de todos,
Num abrir e fechar de olhos.

Ao menos, lembrar-nos-emos um do outro,
Sem que a nossa lembrança nos traga
Remorsos e feridas e depressões,
Porque nunca fizemos revoluções.

E juntos saltemos devagar para este mesmo precipício
Cumprindo assim a verdadeira missão
Para a qual fomos destinados. Fechar os olhos
E cair lentamente, sobre o pesado sono da decadência.

mário lisboa duarte


expressão visual por debrum