fevereiro 22, 2007

19-09-1961 / 22-02-2007


De ti,
Apenas ficarão as palavras
E a luz vaga do teu sorriso
Nas imagens.
Tudo o resto
Parte contigo
Para esse lugar onde
Nem o estrondo das ondas,
Nem o canto da cotovia,
Nem nada.

Obrigado mãe, por tudo.
Descansa em paz.

Diogo

Mário Lisboa Duarte

fevereiro 04, 2007

QUEDA


expressão visual por Frederico Fonseca

A minha vida é uma carroça
Que tropeça na calçada
Que avança desenfreada
Rua acima, rua abaixo.
A minha vida é uma carroça
Desengonçada com o vento
A arfar p’la noite escura
Rua acima, rua adentro.

Até ao dia em que tombar.

Mário Lisboa Duarte

janeiro 27, 2007

MARGINAIS DESTE MUNDO, UNI-VOS!


imagem de marca pelo amigo Ilídio J.B. Vasco, a partir de uma expressão visual por Frederico Fonseca

janeiro 22, 2007

AFORISMO PSICANALÍTICO

Essa
pressa
de repressão
depressa
apressa a
depressão

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

janeiro 10, 2007

BARCA DE CARONTE


expressão visual por Frederico Fonseca

Hoje vou compor um poema com a forma
~~~da barca de Caronte, que é como~~~
~~~~~~~~quem deseja partir~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~desta para~~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~melhor~~~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Mário Lisboa Duarte

janeiro 02, 2007

"ARBEIT MACHT FREI"

Eu ainda hei de medir
O peso da minha alma,
Equacioná-lo com a massa que ocupa,
Multiplicar tudo ao quadrado,
Para compensar o trabalho.
Se mesmo assim não atingir
A liberdade que me prometeram,
Desde o primeiro minuto
Do processo de consciencialização,
Fecho os portões à casa
E, antes que eles cheguem
Mando eu o tiro nos cornos.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

dezembro 20, 2006

CADAVRE-EXQUIS II


expressão visual por Frederico Fonseca

Da varanda da ilusão
Onde te pertences
(Aos povos do sal, aos lobos do mar),
Não és mais do que a mera
Representação da inconstância da vida,
Na imensidão do mar
Revolto.
Pensamentos profundos,
Grutas desenhadas pelas aquarelas
Do mar intemporal.
Ondas revoltas
De sal lacrimejante.


Isabel Oliveira
Mário Lisboa Duarte
Cadavre exquis, Cabo Carvoeiro
Junho 2004

dezembro 13, 2006

ESTUDOS PARA REQUIEM EM RÉ MENOR

Sim, sou eu
Só,
No começo paradoxal
Do fim do dia,
Maestro que guia
Concerto encenado
À porta fechada.
Na luz ofuscante
Que os meus olhos
Buscam incessantemente,
Por entre as imagens
Que vêm
Que vão
Que voltam,
Os flashes desmedidos
Dos imensos túneis
Inundados de moral.
Brinco a Morte
Lançando-me lânguido
Para o lado de lá.
Uma vez mais volto.
Uma vez mais me revolto.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

dezembro 01, 2006

ESPELHO DO PASSADO

Embora ciente
De que um espelho
Será sempre
Reflexo afluente
De fontes rio reminiscência,
Onde outrora mergulhámos,

Pego no passado
E planto-lhe uma pedra,
Estilo tumba ancestral
Renegando uma após outra,
Todas as cósmicas nostalgias
Que um determinado espaço de tempo
Pode conter em si próprio.

Mário Lisboa Duarte



expressão visual por Frederico Fonseca

E DEPOIS


expressão visual por Frederico Fonseca

Desfaço-me em dois
E depois,
Sob o intenso silêncio das noites
Adensa-se a dependência.
"É preciso moral.
É preciso moral!"
Brada-me um velho resto mortal;
"Faça-se luz.
Faça-se luz!"
Lembra-me um pobre carregando uma cruz.
Já é dia.
E depois.
E depois...

Mário Lisboa Duarte

novembro 18, 2006

PSICOTERAPIA


expressão visual por Frederico Fonseca

Para o Lucas Madrugada

Hoje,
Nesta noite de silêncios,
Já nem a música me conforta
Com um breve sorriso na face.
Nem o som agudo do violino,
Nem o travo amargo da aguardente.

Hoje,
Nesta noite de tormentos,
Sofro de uma agonizante melancolia.

(E eu que cheguei a ser fera,
E eu que cheguei a ser profeta do prazer!)

Mas hoje, não.
Hoje, sou estrangeiro de mim próprio,
Amnésico por convicção.
deus caído em apatia.

Porque hoje,
Nesta noite de naufrágios
Deixei, por momentos, de existir
De sentir a minha alma dormente.

Hoje,
Reproduzo-me em mágoas mil,
Parindo de meu próprio ventre
Pedaços de alienação.

Em suma,
Hoje,
Dois mais dois nunca serão quatro,
Congelaram-se-me os gritos.
Talvez porque ao procurar
Vestígios de mim,
Em velhas caixas de infância,
No meio de tanta escuridão,
Acabei por abrir uma caixa de Pandora.

Hoje,
Apenas cataratas de solidão,
E, imóvel no meu sofá,
Aguardo por poderes sobre-humanos,
Do tipo levantar com a mão no ar,
E fazer chegar até mim,
A divina garrafa de ambrósia
Que me contempla do seu pedestal,
Como musa das atrocidades
E dos poetas mal-formados.
Antes fosse absinto, Alexandre.
Antes fosse absinto,
Que ao menos sempre dava
Para o sorriso na cara.

Hoje, mais do que nunca,
Pensamentos profundos,
Daquilo que sou,
Daquilo que sonho ser.
Hoje,
Caminho por entre florestas de silvas,
Rumo a matas de espinhos.

Hoje,
Gotas lânguidas de álcool
Escorregam puras
Pelas paredes do meu ser.
Hoje,
Destino-me a um poço sem fundo,
Ao abismo infinito,
À fogueira da verdade.

Mário Lisboa Duarte

novembro 13, 2006

AQUI OU ALÉM

Aqui ou além,
Tudo culmina
Em tangos multicolores,
Aqui ou além,
Tudo caminha
Com o vento.
Aqui ou além,
Com pequenas asas de borboleta,
Vamos voando voláteis
Contemplando a nossa frágil condição.
Entre os outroras e os amanhãs,
Lancemo-nos como flechas voadoras
Rumo a alvos de lânguido platonismo.
Embriagados pela luz,
Tornemo-nos mariposas
Como cavaleiros de lança na mão
Cavalgando em corcéis de algodão.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

novembro 07, 2006

(SU) POSIÇÃO


expressão visual por Frederico Fonseca

E se eu amanhã me matasse
Sentiriam porventura?
E se amanhã me elevasse
(Espero que esta febre passe)
Ao expoente da loucura,
E morresse e me matasse
E me fosse assim, simplesmente,
(Esta febre, esta agonia)
O que de mim ficaria?
O ar triste nas horas duras,
O sorriso disfarçado às escuras?
(Este mal estar que perdura)
E se eu amanhã me matasse...
Desfechando contra mim
Tudo aquilo que não quis encarar
Como verdade absoluta.
(Esta sina, esta labuta)
Se eu amanhã me matasse
Seria mais um filho da puta.

Mário Lisboa Duarte

BIBLIOTECA DO SER

Do alto das estantes
Que circundam os salões da memória,
Por detrás do seu silêncio,
Do seu profundo sono profano,
O Conhecimento,
Toma a forma de lava incandescente
Prestes a ser expelido
Por crateras de inconsciente.
Arte, Ciência, Filosofia,
Plantas, Números, Teologia,
Política, Amor, Feitiçaria,
Obras secretas, obras ocultas,
Proibidas, perdidas, desconhecidas,
Obras confusas, palavras pensantes…
Aqui,
Na Biblioteca do Ser,
A Senhora Dona Moral,
Bibliotecária caduca mas afamada,
Guarda as suas portas com grave cuidado.
De cada vez que a consulto,
Veda-me a passagem
Ameaçando engolir as chaves
Que guarda com o maior secretismo,
Não vá algum ser curioso, como Eu,
Largar fogo com um só sopro
Na chama nefasta da vida.

Mário Lisboa Duarte

expressão visual por Frederico Fonseca

outubro 24, 2006

O MOMENTO


expressão visual por Frederico Fonseca

O momento etéreo
Aguarda adormecido
No seu sono leve.
Como o som do violino
Que quase silencioso,
Se escuta no fundo do mar.
Por entre melodias de dor,
As folhas dançam encantadas,
Como memórias do passado
Que nos sopram ao ouvido.
Deitado sob as ruínas do que nunca fui
Espero sonhando,
Segregando o suco venenoso
Que o tempo vai largando.
Deixando ao abandono os olhos
Da criança em mim defunta.

Mário Lisboa Duarte

outubro 16, 2006

ANESTESIA

Avanço por entre a multidão
Desalinhada
À procura de uma réstia de calma
Que me possa reconfortar
Como outrora
Nunca como agora
.Confusão.

Ecos de gritos lancinantes,
Carros que se arrastam pelas estradas,
Neons de mil e uma cores,
Becos estreitos sombrios
Olhares profundos e frios
De máscaras agitadas.
Gente que procura em vão,
Com as pernas já cansadas,
Algo que as alivie
Do cansaço e das dores,

Um qualquer anestésico pujante
Que as mantenha acordadas.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

outubro 05, 2006

CADAVRE EXQUIS I


expressão visual por Frederico Fonseca

Olhando por janelas maculadas,
O intenso odor de mundos,
Que só o Homem pode tocar.
O amargo sabor que o som
Transmite à mente
Transforma-se em reflexo na vidraça ,
Incólume, imóvel,
Ecoa…
Como Igreja transparecendo
Ecos do Nada, verdades-mentira,
Que do alto observa, julga,
Mas nada pode fazer senão ser
O que a sua Natureza lhe permite ser,
Nada mais, nada mais…
Ou talvez essa mesma vidraça baça,
Esse nevoeiro de Alma,
Esse misterioso Além-Homem,
Além-Tudo,
O que lentamente se torna inalcançável,
Como altar de desejos inibidos
Por ideais pré-concebidos.
Como inviolável peça de porcelana,
Violação de um espaço que não é seu,
O sol entra na gruta e as sombras nascem,
Erguem-se em protesto
De uma vida que não é sua.
E serpenteia, errante, pensando
Que aquele novo ser que o persegue,
Lhe pertence realmente.
Visões fugazes do que nunca foi,
Alma penosa, dorida,
Apaguem-se as luzes no fundo do túnel,
P
R
o
F
U
N
D
O
Talvez a vida.
Talvez a morte.

Margem d'Arte
(cadavre exquis feito a partir de uma folha A4, dobrada em vários lados (tipo leque) onde cada elemento foi escrevendo versos, sem ter noção do que se estava a criar. A única coisa em comum era o vinho, por sinal tinto, bom e honesto:-)

setembro 28, 2006

TORRE DE BABEL

Não construas pilares inatingíveis sobre ti,
Se ousas caminhar pelos mundos em quem vivo;
Não adormeças sobre pontes de ausência permanente,
Se pensas naquilo em que não sabes se penso,
Se olhas o meu mundo como pura utopia;
Deixa fluir a forma etérea das palavras,
A forma fluida dos dias, os sublimes estados de espírito,
Como a sonata que te desperta a mente
Que te abre portas de luz ofusca,
Janelas de oceanos encantados;
Se tudo o que imaginas é o que os sentidos te oferecem,
Se mesmo isso não acalma a tempestade
Que trazes junto ao peito ardente,
Como quando anseias por sonhos sem fim,
Não te demores no tempo que não te pertence;
Se pudesse partilhar tudo o que sentes,
Orientar-te-ia rumo ao Desconhecido:
Não fiques por aí perdida nesse mundo proibido.
Sê quem tu és e pode ser que percebas quem não sou.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

setembro 23, 2006

PALAVRAS


expressão visual por Frederico Fonseca

Pegar nas palavras
E brincá-las,
Moldá-las,
Ateá-las como pequenas faúlhas
A crescer na lava incandescente;
Expelir de minha boca
Pedaços de tudo o que quis
De tudo o que fiz,
De tudo o que deixei para trás.
Ferida que arde resplandescente
A minha boca fechada
NUNCA MAIS!

E rastejar
E arrastar-me
Até o sol nascer.

mário lisboa duarte

setembro 22, 2006

HOMUNCULUS

Sinto em mim uma irresistível
Propensão para a Morte.
É difícil contrariar este meu desejo,
Trabalho ingrato ocultar sentimentos;
Só a luz do sol que dá a Vida
Me obriga a resistir.
Soldado incógnito em campo de batalha,
Por vezes dispo a Alma
Tentando que apenas fique a máquina,
Mas também essa se movimenta
Rumo a um abismo sem fundo,
Como que autómato programado
Para a destruição.
Assim fica a propensão
E eU, vou envelhecendo
(Vai-se-me enrugando a pele transparente,
Fina como copo de cristal lascado).
Sinto em mim uma irresistível
Propensão para uma Loucura.
E os raios de sol, da luz que dá a Vida,
Atravessam-me a mente
(Queimam por dentro estes raios de luz).
Por vezes tento distrair a Dor,
Mas é remar contra a corrente;
E assim vou acordando e adormecendo,
Segregando cada vez mais bílis negra.
Pele, cabelos, carne, gordura,
Choro, grito, tristeza, amargura;
E tudo o resto para um só buraco,
Que no fundo não passa
De mera vala comum.

mário lisboa duarte


expressão visual por Frederico Fonseca