maio 13, 2007

FUNDIÇÃO (A) FUNDA-SE


expressão visual por Frederico Fonseca

Sob os meus pés
Cidade expira fervilhante
Sangue espesso incandescente
De composição arterial
Multi-combustões circulares
Cidade que pára e arranca
Espasmodicamente soluçando
O vómito cinzento das marés
Onde se funde a carne
E se lava o coração

Mário Lisboa Duarte

SENHORA DA CAFETARIA

Nesse teu tossir doentio
Em que a morte marca o passo,
Olhos pesados, coração sombrio,
Rugas de dor, sofrimento, cansaço.
Por detrás de inúmeras teias,
Prisão perpétua, castelo
De grandes portões, de altas ameias.
Em volta, jardim pouco belo.
Ah! Como eu te entendo,
Senhora da cafetaria,
Trabalhando toda uma vida
Para o pão de cada dia.

Mário Lisboa Duarte

expressão visual por Frederico Fonseca

abril 11, 2007

ORIGEM,PERCURSO,DESTINO





expressões visuais por Frederico Fonseca

O universo a nascer
E a casa-mãe a parir,
Desafiando as barreiras
Da medicina-materno-fetal.
A gente diz que não,
Que não quer que assim seja,
Que a pedra prodígio pode
Sair de cesariana e tal,
Mas o que é que a gente faz
Se já se sente à nossa frente
O buraco outrora virginal!
Pedra após pedra ante pedra,
Parece que a vida sempre perece,
No puxar do cordão umbilical:
O mundo etéreo em exposição
No mercado da imundície, tal e qual;
Afinal, somos todos almas clonadas,
A rezar simetricametricamente
No altar do tempo universal.

Mário Lisboa Duarte

abril 07, 2007

A PESCARIA

Numa destas madrugadas
Pego no coração
Atando-lhe o cordão universal
Para que possa servir de isco
E vou à pesca de ideais.
(Assim sempre posso dizer ao mundo
Que vivo numa espécie de auto-sustento)
Depois, vou vendê-los à praça
Como faria qualquer bom rei pescador.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

março 19, 2007

PALHA


expressão visual por Frederico Fonseca

Ouve lá, pá!
Tu não sabes
Ou não queres saber,
Que a palha não é só p'ra comer!
Também serve p'ra ler,
Ver, ouvir, degustar,
Curtir e saborear,
Injectar, reflectir e correr!
Ouve lá, pá!
Tu pára e pensa lá
Para que serve a palha, afinal!
A todo o instante, pá
Sem excepção
Somos bombardeados com palha.
Mas presta bem atenção,
Pois a palha não é só palha.
Olha a palha na mortalha
P'ra enrolar e queimar!
Os rabos empalhados
Em corpos de palha,
Os banhos tomados
Neste imenso mar de palha.
Isto a vida é só palha, pá!
Não há mais nada que nos valha, pá!
Viva a palha!
Viva, pá!
Sempre palha a toda a hora!
Queremos palha sem demora!
O mundo é um asno esfomeado!
E o menino, na palha deitado, pá!
E o mundo é um eterno curral!
E o mergulho final
Na palha universal, pá!
Palha pá! Só palha pá!
Sempre a entrar palha!
Sempre a sair palha!
Viver sem palha
É uma enorme palhaçada, pá!
O palhaço come palha
E a vida é circo,
E o circo é palha, pá!
Os grandes a fazer palha,
Os pequenos a comer palha!
Todos a ruminar palha,
E os mortos empalhados, pá!
Uma vida sem palha,
Nem é palha nem é nada, pá!
Até o Nada é palha, pá!
Se um pobre te pede esmola,
Dá-lhe palha, pá!
A História é palha!
Deus é palha!
As grandes teorias, tudo palha, pá!
A Carne é palha!
O Verbo é palha!
A palha é o sustento
De toda a cadeia alimentar,
O combustível do porvir!
Viva a palha nas eiras
A transbordar! Viva!
Viva a palha na TV,
Na rádio, na rede, no CCB!
A grande falha
É faltar a palha!
É que a palha é a Mãe!
Palha é Vida,
Palha é ouro, pá!
E nem tudo o que luz é palha!
É a grande revolta da palha
E tu queres largar fogo à palha
Pá! Não vás para lá!
Mastiga a palha!
Morde a palha,
Consome a palha, pá!
Por isso, ouve lá, pá!
Pede palha e pede já!
Não tens que ter receio!
Pois há palha com fartura
Que chegue p'ra toda a gente!
E sempre que olhares
P'ró horizonte infinito
A palha estará sempre presente,
P'ra te iluminar,
P'ra te aconchegar,
P'ra te alimentar, pá!
Viva a palha! Viva!
Agora,
Papa a palha toda, vá!

Mário Lisboa Duarte

março 14, 2007

A CASA

Era uma velha casa plantada
Num dos verdes seios
Que antecedem a vastidão
Desse teu vale ventral.
Outrora, nela habitou
A minha vontade de ficar
Preso às raízes da árvore
Que a degusta e consome
num vazio quase eterno,
E então completar-me
permanecendo intemporal
na cinzenta ignorância das cinzas.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

fevereiro 22, 2007

19-09-1961 / 22-02-2007


De ti,
Apenas ficarão as palavras
E a luz vaga do teu sorriso
Nas imagens.
Tudo o resto
Parte contigo
Para esse lugar onde
Nem o estrondo das ondas,
Nem o canto da cotovia,
Nem nada.

Obrigado mãe, por tudo.
Descansa em paz.

Diogo

Mário Lisboa Duarte

fevereiro 04, 2007

QUEDA


expressão visual por Frederico Fonseca

A minha vida é uma carroça
Que tropeça na calçada
Que avança desenfreada
Rua acima, rua abaixo.
A minha vida é uma carroça
Desengonçada com o vento
A arfar p’la noite escura
Rua acima, rua adentro.

Até ao dia em que tombar.

Mário Lisboa Duarte

janeiro 27, 2007

MARGINAIS DESTE MUNDO, UNI-VOS!


imagem de marca pelo amigo Ilídio J.B. Vasco, a partir de uma expressão visual por Frederico Fonseca

janeiro 22, 2007

AFORISMO PSICANALÍTICO

Essa
pressa
de repressão
depressa
apressa a
depressão

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

janeiro 10, 2007

BARCA DE CARONTE


expressão visual por Frederico Fonseca

Hoje vou compor um poema com a forma
~~~da barca de Caronte, que é como~~~
~~~~~~~~quem deseja partir~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~desta para~~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~melhor~~~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Mário Lisboa Duarte

janeiro 02, 2007

"ARBEIT MACHT FREI"

Eu ainda hei de medir
O peso da minha alma,
Equacioná-lo com a massa que ocupa,
Multiplicar tudo ao quadrado,
Para compensar o trabalho.
Se mesmo assim não atingir
A liberdade que me prometeram,
Desde o primeiro minuto
Do processo de consciencialização,
Fecho os portões à casa
E, antes que eles cheguem
Mando eu o tiro nos cornos.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

dezembro 20, 2006

CADAVRE-EXQUIS II


expressão visual por Frederico Fonseca

Da varanda da ilusão
Onde te pertences
(Aos povos do sal, aos lobos do mar),
Não és mais do que a mera
Representação da inconstância da vida,
Na imensidão do mar
Revolto.
Pensamentos profundos,
Grutas desenhadas pelas aquarelas
Do mar intemporal.
Ondas revoltas
De sal lacrimejante.


Isabel Oliveira
Mário Lisboa Duarte
Cadavre exquis, Cabo Carvoeiro
Junho 2004

dezembro 13, 2006

ESTUDOS PARA REQUIEM EM RÉ MENOR

Sim, sou eu
Só,
No começo paradoxal
Do fim do dia,
Maestro que guia
Concerto encenado
À porta fechada.
Na luz ofuscante
Que os meus olhos
Buscam incessantemente,
Por entre as imagens
Que vêm
Que vão
Que voltam,
Os flashes desmedidos
Dos imensos túneis
Inundados de moral.
Brinco a Morte
Lançando-me lânguido
Para o lado de lá.
Uma vez mais volto.
Uma vez mais me revolto.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

dezembro 01, 2006

ESPELHO DO PASSADO

Embora ciente
De que um espelho
Será sempre
Reflexo afluente
De fontes rio reminiscência,
Onde outrora mergulhámos,

Pego no passado
E planto-lhe uma pedra,
Estilo tumba ancestral
Renegando uma após outra,
Todas as cósmicas nostalgias
Que um determinado espaço de tempo
Pode conter em si próprio.

Mário Lisboa Duarte



expressão visual por Frederico Fonseca

E DEPOIS


expressão visual por Frederico Fonseca

Desfaço-me em dois
E depois,
Sob o intenso silêncio das noites
Adensa-se a dependência.
"É preciso moral.
É preciso moral!"
Brada-me um velho resto mortal;
"Faça-se luz.
Faça-se luz!"
Lembra-me um pobre carregando uma cruz.
Já é dia.
E depois.
E depois...

Mário Lisboa Duarte

novembro 18, 2006

PSICOTERAPIA


expressão visual por Frederico Fonseca

Para o Lucas Madrugada

Hoje,
Nesta noite de silêncios,
Já nem a música me conforta
Com um breve sorriso na face.
Nem o som agudo do violino,
Nem o travo amargo da aguardente.

Hoje,
Nesta noite de tormentos,
Sofro de uma agonizante melancolia.

(E eu que cheguei a ser fera,
E eu que cheguei a ser profeta do prazer!)

Mas hoje, não.
Hoje, sou estrangeiro de mim próprio,
Amnésico por convicção.
deus caído em apatia.

Porque hoje,
Nesta noite de naufrágios
Deixei, por momentos, de existir
De sentir a minha alma dormente.

Hoje,
Reproduzo-me em mágoas mil,
Parindo de meu próprio ventre
Pedaços de alienação.

Em suma,
Hoje,
Dois mais dois nunca serão quatro,
Congelaram-se-me os gritos.
Talvez porque ao procurar
Vestígios de mim,
Em velhas caixas de infância,
No meio de tanta escuridão,
Acabei por abrir uma caixa de Pandora.

Hoje,
Apenas cataratas de solidão,
E, imóvel no meu sofá,
Aguardo por poderes sobre-humanos,
Do tipo levantar com a mão no ar,
E fazer chegar até mim,
A divina garrafa de ambrósia
Que me contempla do seu pedestal,
Como musa das atrocidades
E dos poetas mal-formados.
Antes fosse absinto, Alexandre.
Antes fosse absinto,
Que ao menos sempre dava
Para o sorriso na cara.

Hoje, mais do que nunca,
Pensamentos profundos,
Daquilo que sou,
Daquilo que sonho ser.
Hoje,
Caminho por entre florestas de silvas,
Rumo a matas de espinhos.

Hoje,
Gotas lânguidas de álcool
Escorregam puras
Pelas paredes do meu ser.
Hoje,
Destino-me a um poço sem fundo,
Ao abismo infinito,
À fogueira da verdade.

Mário Lisboa Duarte

novembro 13, 2006

AQUI OU ALÉM

Aqui ou além,
Tudo culmina
Em tangos multicolores,
Aqui ou além,
Tudo caminha
Com o vento.
Aqui ou além,
Com pequenas asas de borboleta,
Vamos voando voláteis
Contemplando a nossa frágil condição.
Entre os outroras e os amanhãs,
Lancemo-nos como flechas voadoras
Rumo a alvos de lânguido platonismo.
Embriagados pela luz,
Tornemo-nos mariposas
Como cavaleiros de lança na mão
Cavalgando em corcéis de algodão.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

novembro 07, 2006

(SU) POSIÇÃO


expressão visual por Frederico Fonseca

E se eu amanhã me matasse
Sentiriam porventura?
E se amanhã me elevasse
(Espero que esta febre passe)
Ao expoente da loucura,
E morresse e me matasse
E me fosse assim, simplesmente,
(Esta febre, esta agonia)
O que de mim ficaria?
O ar triste nas horas duras,
O sorriso disfarçado às escuras?
(Este mal estar que perdura)
E se eu amanhã me matasse...
Desfechando contra mim
Tudo aquilo que não quis encarar
Como verdade absoluta.
(Esta sina, esta labuta)
Se eu amanhã me matasse
Seria mais um filho da puta.

Mário Lisboa Duarte

BIBLIOTECA DO SER

Do alto das estantes
Que circundam os salões da memória,
Por detrás do seu silêncio,
Do seu profundo sono profano,
O Conhecimento,
Toma a forma de lava incandescente
Prestes a ser expelido
Por crateras de inconsciente.
Arte, Ciência, Filosofia,
Plantas, Números, Teologia,
Política, Amor, Feitiçaria,
Obras secretas, obras ocultas,
Proibidas, perdidas, desconhecidas,
Obras confusas, palavras pensantes…
Aqui,
Na Biblioteca do Ser,
A Senhora Dona Moral,
Bibliotecária caduca mas afamada,
Guarda as suas portas com grave cuidado.
De cada vez que a consulto,
Veda-me a passagem
Ameaçando engolir as chaves
Que guarda com o maior secretismo,
Não vá algum ser curioso, como Eu,
Largar fogo com um só sopro
Na chama nefasta da vida.

Mário Lisboa Duarte

expressão visual por Frederico Fonseca