janeiro 02, 2007

"ARBEIT MACHT FREI"

Eu ainda hei de medir
O peso da minha alma,
Equacioná-lo com a massa que ocupa,
Multiplicar tudo ao quadrado,
Para compensar o trabalho.
Se mesmo assim não atingir
A liberdade que me prometeram,
Desde o primeiro minuto
Do processo de consciencialização,
Fecho os portões à casa
E, antes que eles cheguem
Mando eu o tiro nos cornos.

Mário Lisboa Duarte


expressão visual por Frederico Fonseca

7 comentários:

Lou Camille aka Sílvia A. disse...

muito bonito e foto excelente

Tânia Pereira disse...

Tenho um amigo que diz:
qualquer dia levanto-me e dou um tiro a todos os gajos que não pensam...lembrei-me disto a propósito da desculpabilização que encontro na tua decisão final de suicídio. Não é a diferença de peso ou da massa da alma...carregamos com ela a vida toda e há tantos momentos em que dela nem nos lembramos..outros há em que essa pena é mesmo uma pena ser nossa e que não a possamos arrumar a um canto, só às vezes.
De uma alma para a outra: força aí!

Marginal disse...

Tânia: este exercício poético, como todos os outros, devem ser encarados como tal, e não como exposição concreta de um autor para o mundo. Neste caso específico, é um estudo baseado na obra e vida de Primo Levi. A "decisão final" será sempre mais um conformismo com o inevitável. Levi fê-lo com argumentos mais que válidos. Como é óbvio cada um poderá ver o que quiser em cada uma destas exposições. Beijos

Tânia Pereira disse...

Eu sei
aliás nem tem que ser uma exposição de um sujeito poético e nem o sujeito poético tem que ser acto ou acção ou retrato ou retratador...mas quando comento faço-o à luz do que recebi do texto e se foi esta a minha interpretação, então o comentário vem nesse mesmo caminho.
Foi e é assim que comento...ups!

Ana Cristina Leonardo disse...

Quando eu estive aqui, o silêncio que se vê nesta fotografia estava povoado de camionetas de turismo, carros, gente barulhenta e conversas da treta. Na realidade, só quase faltaria um vendedor de cachorros... Para tornar a visita ainda mais surreal, houve mesmo uma freira que, antecipando a proibição de fumar, me disse com um largo sorriso, sabendo bem ela, por ser polaca, de que pavilhão saía eu e porque fumava à porta dele: it's allowed to smoke in Auschwitz!
Silêncio, só o senti em Birkenau, longe do espectáculo.

Ana Cristina Leonardo disse...

queria dizer:
it's NOT allowed to smoke in Auschwitz

Mário Lisboa Duarte disse...

Ana,

A tua descrição, apesar de não estar aqui contemplada, também ficou gravada na nossa memória visual pessoal. Tipo circo, sem dúvida. Não imaginas o tempo que precisámos para conseguir o portão "livre". Enfim, obrigado pelo teu comentário.

Quanto ao fumar, nada a dizer a não ser que há pessoas com uma capacidade incrível e surreal para conseguir tempestades em copos de água. A verdade é que nem sempre há fogo onde há fumo.
O que pensaria Primo Levi?